O ESPELHO NO BOLSO
(Edu Martins)
Na fenda que se apensa
Na contracapa da calça
Guarda um espelho
Feito lâmina afiada em bainha de guarda
E se de lá não o remove
É pra não olhar de quando em vez
A retilínea reflexão de uma memória
Que quer sempre arranhar a tez
Por isso o traz cativo
A ousadia é então guardar
(leia-se deixar escondido)
Sabe-se lá quando precisar
Dar à luz uma imagem esquecida
Que se teima em notar...
Estagnada e esmaecida
Mas o que se repete: nada a olhar...
Incauto mostra aos outros
Esse plano de uma imagem bela
Os desejos encantados, loucos
E depois a lâmina volta pra sua cela
O túmulo do bolso
Até uma próxima exumação
*Pintura Narciso, Caravaggio (1594-1596)

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