MORAL AO CONTRÁRIO NA GLOBO
Ontem me flagrei assistindo ao primeiro (e último, ao menos para mim) capítulo da novela Avenida Brasil exibida pela Rede Globo. Eis a cena que vi e o que percebi estar por detrás da mesma: um homem de meia idade que aqui vou indicar como “velhaco”, estava na cama com uma mulher muito mais nova e, naturalmente, muito bonita (para atender ao padrão Globo e de "mercado") que aqui chamarei de “gostosa”. Enquanto o inusitado casal fazia seu jogo, jazia, perdoem a aliteração, debaixo da cama a ex mulher do velhaco; uma senhora de meia idade, ou idade próxima a dele; aqui designada “coroa”. Esta, muito incomodada, se contorcia por dentro de um possível ciúme, ali sepultada sob a cama. O que ela fazia ali? Por quê?
As cenas seguintes revelaram o mistério. O velhaco, que fora por séculos casado com a coroa estava dela separado e mantinha um namoro com a gostosa. Numa crise de consciência nostálgica estava voltando a querer a ex e com ela mantinha um affair, claro, em total segredo. O antigo casal estava no quarto às escondidas e a namorada, i.e., a gostosa chega de surpresa! A coroa é catapultada para sob a cama e o velhaco para sobre a gostosa, tudo numa velocidade fáustica e não tão obviamente fingindo o jogo com a gostosa sobre a cama. A coroa, que mantinha um relacionamento com um outro homem, olhem só, muito mais novo, e que aqui chamarei de garotão, sofria da mesma febre de recaída pelo velhaco e estava apenas aparentemente comprometida com o tal garotão.
Num momento que pareceu ser o dia seguinte eles, o velhaco e a coroa, estavam com amigos e familiares fazendo as costumeiras dissimulações e ele se aproxima dela. Com provocações febris, pornográficas e cafonas do tipo “aê gostosa!” tenta seduzi-la a estar com ele na cama ainda aquela noite, isso mesmo que você entendeu, trocar a gostosa pela coroa; consequentemente a coroa trocaria o garotão pelo velhaco.
Antes de seguir e perder algum leitor preciso ressaltar que acho o amor legítimo, lindo e necessário independente das idades, não sou machão e nem machista. Ora, aquela cena é tão absurda que chega a ser bizarra. Estivesse o velhaco na sua crise nostálgica a desejar a mulher mais velha por ser a mulher da vida dele, o que nos privaria das sandices ditas sob eufórica combustão, ou por ver nela vantagens, ou virtudes num âmbito onde ela é de fato mais forte, tudo faria sentido. Agora, apenas e somente chama-la de gostosa é, a um só tempo, atestar a própria miopia e não ver os explícitos dotes da jovem que está num estágio de sua própria história que a mais velha já esteve. O velhaco trocar a gostosa pela coroa não faz nenhum sentido se o fator de escolha for algo totalmente descabido e impossível de ser aplicado. É como dizer: vou escolher esse cavalo porque é muito mais salgado que o som daquele violino! Ou essa zebra é mais transparente que aquele charuto! Ele ficaria com a gostosa não porque ela é mais gostosa, mas obrigatoriamente mais gostosa! Ou, ele ficaria com a coroa não porque ela é mais experiente (além de gostosa, se for o caso), mas obrigatoriamente mais experiente. E descobrirá a mais incrível magia: elas são diferentes! Comparar uma pessoa mais velha com outra muito mais nova nesses termos é quase tão descabido quanto comparar um avestruz com uma bicicleta.
A novela tenta, de uma forma absurda, pregar uma moral ao contrário, pois para eles, falsos liberais, “é errado defender qualquer moral”. Os casais podem e devem se apaixonar novamente, mas a novela reduz o espectro de cores que transpassam as suas lentes. Este é monocromático e permite apenas a troca do cinza, por outro cinza. Num ambiente monocromático onde tudo é sex appeal é impossível ver outra beleza. As lentes viciadas da novela perderam a chance de revelar um revés para o amor que só pode ser visto com outras que concedem a passagem de um infinito pantone de exuberância; de onde fluem balsâmicos sentimentos num intenso amar. Duas almas quiçá siamesas revivendo, sob o amor que nutriram, como eternos entes, a força prodigiosa de um poder incomparável. Num próprio jardim, ou paraíso. Lugar de refúgio, encontro íntimo com o outro, dando sentido e fazendo a vida ser digna de ser vivida. Lá, o sol é vigoroso e grande é a manhã com intenso respirar! O suspiro não virá só deles, mas até dos ventos e dos montes como testemunhas. Não importando se a outra(o), é, ou não gostosa(o).
Mas...
É uma novela Global. E como diz o senso comum: o amor é cego! (não só o amor...). Já para outros, claro, tem olhos de águia, ufa...
